Desta vez vamos falar sobre a disfunção da tireoide, sendo a mais comum, o Hipotireoidismo, que é a baixa função dessa glândula, liberando hormônios com quantidade insuficiente. Regula a função de órgãos importantes como o coração, cérebro, fígado e rins e atua diretamente no crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes, na regulação dos ciclos menstruais, na fertilidade, no peso, na memória, na concentração, no humor e no controle emocional.A escolha do tema é devido à incidência de pacientes que tenho com essa patologia que, muitas vezes chegam sem diagnóstico e com uma clínica exuberante tentando-se tratar o(s) sintoma(s), muitas vezes com ansiolíticos, antidepressivos, anticoncepcionais e sem melhora clínica. É um assunto bastante complexo e espero que possa ser útil.A dificuldade que vejo na clínica para diagnósticos e resolutividade das queixas dos pacientes tem ocorrido com frequência devido a 2 fatores principais: primeiro a compreensão do corpo como partes isoladas com a formação das subespecialidades e a extinção dos Clínicos Gerais e, segundo, a comparação do corpo humano como uma máquina - o coração passou a ser a bomba; o pulmão, o fole; o intestino, o tubo; o rim, o filtro e, finalmente, o cérebro, o computador. Com isso os exames laboratoriais e os exames de imagem se tornaram mais importantes. Como não somos partes mas sim somos Um Todo e como não somos máquinas mas sim Seres Individualizados com toda uma existência que nos difere, não tem como armar protocolos ou examinar por partes. Temos que ver Um Todo e para isso, uma relação médico-paciente humanizada é imprescindível.
A glândula tireoide tem uma forma bem parecida com a de uma borboleta. Ela é localizada na parte anterior do pescoço e produz dois hormônios que se chamam Tetraiodotironina (T4) e o Triiodotironina (T3). Esses dois hormônios ajudam o nosso corpo a manter a pressão sanguínea, o ritmo cardíaco, o tônus muscular e as funções sexuais. Atuam na oferta e no consumo de oxigênio pelos órgãos, o que intensifica a respiração celular, liberando calor no organismo. O T4 é um pró-hormônio pois precisa sofrer um processo bioquímico utilizando o Iodo, se transformando em T3 que é o hormônio que irá atuar diretamente ao receptor celular. Resumindo, o verdadeiro hormônio chave na função da tireoide é o T3.
SINTOMAS DO HIPOTIREOIDISMO
Os sintomas e sinais do déficit da função tireoidiana são extensos como poderão constatar a seguir.
Sintomas Gerais do Hipotireoidismo
Fadiga ou cansaço excessivo
Ganho de peso ou incapacidade de perder peso
Obesidade
Extremidades frias
Perda de vigor
Diminuição da energia durante a tarde
Baixa temperatura pela manhã
Edema e retenção de líquido
Olhos secos e/ou arenosos
Incapacidade de fazer exercício físico
Tremor, nervosismo, ou sensação de tremor
Rouquidão
Suor frio
Falta de coordenação
Pálpebras pesadas
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados ao Sono
Insônia
Má qualidade do sono
Acordar sentindo-se cansando
Dificuldade de sair da cama pela manhã
Pesadelos frequentes
Apneia do sono
Excesso de ronco
Suores noturnos
Sintomas Sensoriais do Hipotireoidismo
Incapacidade de concentração
Reflexos e tempo de reação diminuído
Sensibilidade à luz solar ou artificial
Sensibilidade para quente e frio
Sensibilidade aos odores fortes
Sensibilidade a ruídos altos
Visão turva
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados à Pele, Cabelo e Unhas
Inchaço nos olhos, face, mãos, pés e/ou tornozelos
Queda de cabelo
Cabelos quebradiços
Perda de cílios
Perda de fios da sobrancelha (parte externa)
Unhas frágeis, esquisitas, ou descamando
Pele seca, escamosa
Pele pálida e/ou amarelada
Olheiras
Acne
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados ao Sistema Digestivo
Perda de apetite ou apetite aumentado principalmente para massas e doces
Constipação Intestinal (prisão de ventre)
Alergias alimentares e Sensibilidades
Dificuldade ao deglutir
Língua inchada ou com sulcos
Boca seca
Intolerância ao álcool
Hemorroidas
Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Distensão abdominal
Flatulência
Mau hálito
Diabetes
Doenças do Fígado / Vesícula Biliar
Hipoglicemia
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados ao Coração
Colesterol alto
Pressão alta
Baixa pressão arterial
Pulso lento/fraco (menos de 60 bpm)
Pulso rápido (mais de 90 bpm em repouso)
Palpitações cardíacas
Doenças cardíacas
Sangramento e problemas de coagulação
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados ao Sistema Imunológico
Infecções recorrentes das vias aéreas superiores
Infecções fúngicas e cândida
Doença autoimune
Sintomas Mentais do Hipotireoidismo
Ataques de pânico ou fobias
Falta de memória
Confusão mental
Inquietação
Lentidão mental
Déficit de atenção com ou sem hiperatividade
Dificuldade de aprender coisas novas
Falta de concentração
Perda da motivação
Vertigem ou tontura
Depressão pós-parto
Sintomas Emocionais do Hipotireoidismo
Depressão
Nervosismo e ansiedade
Chatear-se facilmente
Comportamento antissocial
Falta de confiança
Mudanças de humor frequentes
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados à Dor
Enxaqueca
Dores de cabeça de pressão
Câimbras
Dores musculares
Dores pelo corpo em geral
Dor articular ou rigidez
Síndrome do túnel do carpo
Tendinite
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados à Saúde da Mulher
Sintomas pré-menstruais
Ciclos menstruais irregulares, mais longos, mais leves ou mais pesados
Cólicas menstruais
Sem menstruação por vários meses
Infertilidade
Histórico do aborto
Miomas
Perda de libido
Sintomas do Hipotireoidismo Relacionados à Saúde do Homem
Perda de libido
Disfunção erétil
A descrição ampla desses sintomas já nos remete a uma compreensão: da importância dessa glândula para a nossa saúde, para o nosso bem-estar.
DIAGNÓSTICO DO HIPOTIREOIDISMO
Para entendermos melhor essa etapa temos que ter o conhecimento do eixo hormonal tireoidiano.
Tudo começa no hipotálamo, uma região do cérebro que controla, entre outras glândulas, a hipófise. O hipotálamo produz o TRH, um hormônio que estimula o receptor da hipófise. E, com esse estímulo, a hipófise produz o TSH, que é o hormônio estimulante da tireoide. É o TSH que dá o sinal para a glândula tireoide produzir e liberar os hormônios T3 (triiodotironina) e o T4 (tiroxina). A matéria prima desses hormônios tireoidianos é o Iodo. O Iodo vindo dos alimentos é captado pelas células tireoidianas e passa por uma oxidação e se associa à tireoglobulina (proteína produzida pela própria glândula) resultando assim no T3 e T4. E assim, eles são direcionados para os diversos órgãos pela corrente sanguínea.
Agora sim, poderemos entender melhor os passos da disfunção dessa glândula! A grande maioria das pessoas que vão fazer exame para saber se há algum problema na tireoide, é solicitado somente TSH e T4 avaliação da um check up fazem sempre os mesmos exames sanguíneos. Aí iremos nos deparar com 4 problemas. O primeiro é a desconsideração clínica em prol de resultados de exames. Existem inúmeros fatores que podem reduzir os níveis de TSH - relembrando, que é o hormônio que estimula a tireoide a produzir o T3 e o T4 - dando um diagnóstico falso negativo de hipotireoidismo como: Envelhecimento, Estresse excessivo (cortisol alto), Infecção, Dor ou trauma, Má alimentação, Cafeína, Adrenalina, Somatostatina, Dopamina ou L-dopa, dentre outros.
“Exame laboratorial tireoidiano não substitui o BOM JULGAMENTO CLÍNICO, e não deve ser utilizado para confirmar ou refutar uma impressão diagnóstica, ou para determinar a terapia”
Ernest Mazzaferri, M.D.
Journal of Postgraduate
O segundo problema é o diagnóstico SOMENTE ser feito se o TSH estiver acima de 5! Já tive casos de paciente chegar arrastado de tantas queixas, ao consultório, com TSH 6,5 e não fazerem NADA por ele! A medicina é uma ciência de verdades transitórias e a evolução nesta área já aconteceu mas, infelizmente, está demorando muito para chegar aos consultórios médicos. O Terceiro problema é que a avaliação somente de TSH e T4 Livre não é suficiente pois a causa mais comum de Hipotireoidismo é uma doença auto-imune que ataca e destrói a glândula tireoide chamada Tireoidite de Hashimoto. A identificação deve ser feita através de 2 anticorpos que afetam a produção dos hormônios tireoidianos: Anticorpos anti-tireoperoxidase (Ac Anti-TPO), que indica que o sistema imune ataca a enzima TPO na glândula tiroide e, Anticorpos anti-tieroglobulina (Ac Anti-TGB), que indica que o sistema imune ataca a proteína TGB na glândula tiroide. O quarto problema, vejo mais problemático pois, no meio acadêmico apesar de se estudar fisiologia, os alunos saem da escola de medicina desconsiderando o hormônio mais importante da tireoide: o T3. O T4 não é um hormônio real, mas um pró-hormônio. Pois não é ele que se liga aos receptores celulares do corpo. Para entenderem melhor, o T4 é um hormônio semi-pronto que diante da necessidade do corpo ao hormônio tireoidiano, ele sofre um processo bioquímico com a ajuda do selênio e se transforma em T3. Já disse anteriormente e repito: o T3 é o verdadeiro hormônio chave na função tireoidiana. O T4 é produzido 100% na tireoide e o T3 somente 20%. Os 80%, a conversão de T4 em T3 ocorre no fígado e em outros tecidos periféricos. Para fazermos uma avaliação laboratorial da função tireoidiana devemos solicitar pelo menos TSH, T4 Livre, Ac Anti-TPO, Ac Anti-TGB e o T3 Livre. Então, se esse conhecimento não sai da escola, é mais difícil ainda entrar nos consultórios.
Importante também fazermos uma abordagem laboratorial abrangente junto à clínica pois teremos alguns indicadores úteis como:
Colesterol (hipotireoidismo cursa com níveis altos de colesterol)
Sódio (hipotireoidismo cursa com níveis baixos de sódio)
Lactato (hipotireoidismo aumenta a produção de ácido lático)
Agora uma avaliação bastante simples e muito útil é a medida da temperatura corporal por 5 manhãs seguidas, antes de se levantar da cama. Caso a média estiver abaixo de 36,5 graus C é provável que tenha uma disfunção da glândula tireoide. Às mulheres que menstruam devem fazer a medição da temperatura após a menstruação.
“Grave a sua temperatura matinal por 5 dias. Se sua temperatura estiver persistentemente abaixo de 97,8 graus F (correspondente a 36.56 Celsius), você pode ter uma disfunção de tireóide, e com isso, deverá procurar um profissional de saúde.” - “The Fatigue Solutions”, 1 edition (March 15, 2012) - Draª Eva Cwynar, médica, especialista em endocrinologia pela New York University school of Medicine.
Referência: BARNES, B. Hypothyroidism: The unsuspected illness.. Harper-Collins (1939)
VARIANTES QUE DIFICULTAM O DIAGNÓSTICO DE HIPOTIREOIDISMO
Agora vamos tratar de algumas variantes que dificultam chegarmos ao diagnóstico de Hipotireoidismo não nos deixando dúvida de que é um problema de saúde mais sub-diagnosticado atualmente.
Abaixo descrevo 5 principais variantes:
Hipotireoidismo Causado por Disfunção Pituitária - causado por cortisol elevado. Cursa com TSH normal a baixo e T4 baixo
Sub-Conversão de T4 em T3 - causado pela presença de citocinas inflamatórias e cortisol alto. Cursa com TSH e T4 normais e T3 baixo.
Hipotireoidismo Causado por TGB Elevada - causada por níveis elevados de estrogênio. Cursa TSH e T4 normais, T3 pode estar baixo, TGB alta.
Hipotireoidismo Causado pela TGB Baixa - causada por níveis elevados de testosterona e, nas mulheres é comumente associada à síndrome de ovários policísticos e resistência insulínica. Cursa com TSH e T4 normais e T3 elevado, TGB baixa.
Resistência à Tireoide - causada por níveis de estresse crônico e altos níveis de cortisol, homocisteína alta e fatores genéticos. Cursa com testes laboratoriais normais.
Não só esses padrões podem não aparecer no exame laboratorial de rotina, como eles podem não responderem bem a reposição hormonal convencional. Se o seu corpo não pode converter T4 em T3, ou você tem muita globulina ligadora de tiroxina (TBG), ou as células são resistentes, não adianta aumentar a dosagem do seu hormônio. O que observamos na prática são pessoas tratadas com altas doses de levotiroxina (Syntroid, Levoid, Puran T4) e mantendo todos os desconfortos do Hipotireoidismo. A produção, transformação e absorção do hormônio tireoidiano envolve várias etapas. O mau funcionamento de qualquer dessas etapas pode causar sintomas de hipotireoidismo. É incorreto e até mesmo negligente dizer que todos os casos de hipotireoidismo compartilham da mesma causa e exigem o mesmo tratamento. É muito importante o diagnóstico com o tratamento adequado e assim teremos uma resposta satisfatória.
“O MAIOR TESTE DE TODOS É COMO SE SENTE O PACIENTE, NÃO UM NÚMERO DE LABORATÓRIO!”
Richard L. Shames M.D.
PREVENÇÃO DA DISFUNÇÃO DA TIREOIDE
Neste tópico iremos tratar da Prevenção de fato do agravo à tireoide, mas mesmo quem já tem o hipotireoidismo é recomendado essas orientações seguintes.
Evitar Alimentos Que Fazem Mal à Tireoide
A alimentação é de extrema importância para a saúde. Eliminar os alimentos prejudiciais e aumentar o consumo de alimentos saudáveis para a tireoide não é uma opção, mas sim uma necessidade. Os sintomas do hipotireoidismo estão relacionados com a glândula da tireoide, mas também podem estar relacionados com intolerâncias alimentares, fadiga adrenal e outros fatores que influenciam os hormônios, importantes para o funcionamento da tireoide.
Vamos começar a orientação restringindo a soja do nosso cardápio. Isso inclui edamame, leite de soja, tofú, reposição hormonal com isoflavona, etc. A soja é muito estrogênica e inibe a glândula tireoide de secretar seus hormônios.
Outro alimento que contribui diretamente para o hipotireoidismo são as gorduras poli-insaturadas ômega 6. O excesso de ômega 6 causa inflamação e suprime a função da tireoide, bloqueando a secreção de hormônio da tireoide e impedindo o transporte do hormônio da tireoide na corrente sanguínea. As principais fontes do Ômega 6 está nos óleos de soja, milho e girassol. A contribuição que podemos dar para a nossa saúde é a redução de ingestão desses óleos e o aumento da ingestão de Ômega 3.
Agora vamos falar de 2 elementos químicos presentes em grande quantidade na nossa água: o Cloro e o Flúor. Esses 2 elementos competem com o Iodo junto aos receptores celulares, diminuindo a produção de T4 e T3 e dificultando a conversão de T4 para T3. Então é importantíssimo buscarmos qualidade na água que ingerimos. E há boas disponibilidades de filtros no Brasil com a preocupação de eliminar esses elementos tornando-se a água saudável.
Um outro elemento químico é o Bromo que está no preparo de pães na padaria que tem a mesma ação que o flúor e o cloro na função tireoidiana.
Evitar Alimentos Processados
Alimentos processados ou embalados são carregados com grãos processados que aumentam o nível de açúcar no sangue (glicemia) que irá aumentar os níveis de insulina e este, por sua vez irá aumentar o cortisol elevando assim, novamente, os níveis de açúcar no sangue. Além disso, esses alimentos estão recheados de produtos químicos tóxicos que contribuem para a congestão do fígado o que torna ainda mais difícil converter os hormônios da tireoide necessários em sua forma ativa (T3).
Ingestão adequada de iodo na dieta.
Suplementação de Iodo em todo o período da gravidez e triagem neonatal para diagnóstico e tratamento precoces do hipotireoidismo congênito, evitando complicações graves como retardo mental e atraso do crescimento.
Evitar exposição a radioatividade externa da cabeça e pescoço.
Anticoncepcionais orais e injetáveis dificultam a transformação de T4 em T3.
A função dessas drogas é inibir a ovulação e para que isso aconteça leva a alteração de todo o eixo hormonal, inclusive a função tireoidiana.
A alteração dos hormônios da tireoide pode acometer qualquer idade, portanto é muito importante evitar os agravos à essa glândula vital conforme descrito acima e deve ser amplamente avaliada para evitar que muitas pessoas sejam tratadas equivocadamente com planos de emagrecimento fadado ao insucesso, com drogas para depressão, para déficit de atenção, para baixar o colesterol entre outras, ao invés de tratar o problema de base.
Nesta loucura do tempo curto e da pressa sem fim, a Tireoide está literalmente sendo bombardeada pelo o que comemos, o que bebemos e o que sentimos. Muitos são os que passam uma vida toda lutando contra os sintomas do hipotireoidismo sem diagnóstico ou um tratamento adequado. Certamente, depois dessa leitura, muitas pessoas que tem Hipotireoidismo não diagnosticado se sentirão mais seguras para buscarem ajuda. Pois o nosso interesse é que esse conhecimento amplie a consciência de vocês e possa colaborar com a sua saúde!